quarta-feira, 15 de abril de 2009

Nomikais

Olá, leitores! Se é que vocês existem, sejam mais uma vez bem-vindos ao meu blog!
Depois que eu parei de escrever por um mês e anunciá-lo, não existem mais razões pelas quais as pessoas entrem aqui - a não ser que me encontrem em um mecanismo de busca ou eu volte a anunciá-lo aos amigos e conhecidos.

Hoje vou falar sobre um acontecimento que terá em alguns instantes aqui no meu laboratório. A Nomikai. Nomikai é uma palavra formada por nomi (ato de beber) e kai (reunião), então é fácil inferir que é uma reunião para beber. O motivo da reunião de hoje no nosso laboratório é marcar o início do ano letivo de 2009 e dar as boas-vindas aos calouros de último ano de engenharia e do mestrado (eu sou um deles). 

Como funciona uma nomikai no Japão?

Primeiro, o meu parecer sobre o significado e a importância social da nomikai. A nomikai é um evento de suma importância social, no trabalho ou em grupos de estudo e pesquisa, em que as pessoas que compartilham o mesmo local e tempo de trabalho se reunem para comemorar esse fato e abrir o coração. Abrir o coração inclui todos os fatos interessantes cometidos por pessoas inebriadas pelo delicioso saquê. ou atsukan (saquê aquecido em banho maria, como bebido em tempo frio), pela cerveja, pelas outras bebidas alcoólicas que você imaginar. 

Seguindo a cultura japonesa, faltar a um evento a que você é convidado é falta de consideração, falta de educação mesmo, a não ser que você tenha uma justificativa plausível. Em uma das nomikais, não esteve presente a secretária do laboratório, que é mãe de família. Mas isso não é motivo para faltar, não! Ela tinha ido para a Coreia do Sul, numa viagem programada antes de marcarem a data da nomikai. 

Aliás, Coreia do Sul é um dos países que eu vou conhecer antes de voltar para o Brasil, afinal é o destino internacional mais próximo e barato que tem... em promoção, pacote de 4 dias com hotel e passagem por 300 dólares em média.

Voltando à nomikai. Esta é um evento de geralmente 2 horas de duração, que são realizados em Izakayas (bares em estilo japonês). Esses bares oferecem um período de duas horas com rodízio de bebidas alcoólicas e não-alcoólicas por um preço determinado. Às vezes esse custo inclui algumas porçõezinhas, às vezes as porçõezinhas são à parte, mas eu sempre saio com fome desses lugares.

Após todos se reunirem num horário marcado religiosamente, é feito um brinde pelo chefe do grupo (no caso do meu laboratório, o meu orientador), e gritam Kanpai!!! (Saúde!), fazendo tin-tin. Até então nada tão anormal, sem falar que tin-tin é um palavrão aqui no Japão (car****), fato pelo qual não é comum "onomatopeizar" o tilintar dos copos dessa maneira.

Depois, começa o bate-papo e a bebedeira, com variedade imensa de bebidas, mas sempre o saquê sendo a bebida mais consumida. O costume japonês rege que uma pessoa deve servir a outra; não sei se isso tem ordem hierárquica, mas você deve ser servido e beber. Se você não quiser beber mais, deve deixar o último copo cheio. Caso contrário, se alguém perceber, vai logo encher seu copo novamente, e aí se inicia o ciclo alcoólico das "aberturas de coração" previamente mencionadas.

Eu percebi que muitos bebem por educação, em respeito ao seu superior, e alguns japoneses têm uma facilidade de ficar vermelhos, roxos, com álcool. Parece que falta uma enzima no corpo deles que faz isso acontecer. Como muitos bebem por educação, em respeito ao superior, ou nas brincadeiras ébrias, muitos passam mal, mas isso não é problema. Aparentemente a regra é: "Procure não vomitar aqui. Vá ao banheiro, vomite o que precisar e volte para brindarmos novamente."

Como o álcool é então muito presente, coisas muito interessantes também acontecem. Certa vez ouvi falar que um funcionário, no retorno da nomikai, puxava seu chefe pelo pênis na estação. Acho que não é mentira não, haja vista o quanto eles bebem e esquecem da vergonha.

O mais interessante é que, na sociedade japonesa, seja o que for que você tenha cometido na noite passada, em que todo mundo estava feliz, nada é comentado, não se tira sarro. Com discrição absoluta, no dia seguinte no trabalho ou no laboratório é como se nada tivesse acontecido. "Bom dia", "Bom dia"... Já que todo mundo é culpado, por que eleger um coitado?

Meu professor fica alto e faz piadas, mete a boca nos alunos que não estão indo bem, serve os alunos e questiona porque estão bebendo mais, e no final vai embora com os seus discípulos ajoelhando à sua volta. 

O mais legal é que a maioria do povo usa o transporte público. "Se beber, não dirija", além de lei aqui também, é respeitada. Então todo mundo pode festar e deixar depois o metrò ou o trem fedendo pinga que não tem problema.

É isso, pessoal!

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