sexta-feira, 17 de abril de 2009

Hoje, sem ideias

Olá pessoal!

Hoje realmente estou sem muitas ideias para escrever neste blog, mas não gostaria de deixá-lo abandonado, dando razão à Lei de Murphy do esquecimento, passando a impressão de que não vou mais escrever tão cedo no blog, o que não pretendo que aconteça.

O mais engraçado seria se essa mensagem se tornasse a última no blog, e lá por 25 de fevereiro de 2034, uma pessoa entrasse aqui e desse gargalhada da minha cara. Não, isso eu não quero! Mas é muito comum isso acontecer. Eu já fiquei de cara ao ver muitas sites desatualizados, hahaha...

Aqui no Japão estamos na primavera, o tempo está bom, mas alguns dias tem chovido, o que é uma porcaria mas bom para baixar o pó. No caso dos japas que não tiram pó de quase nada, melhor ainda.

Dos fenômenos meteorológicos para o pó, uma coisa engraçada que observamos foi o banheiro do último andar da biblioteca da faculdade. Ele não estava com problemas... só estava velho e encardido. Mas os japas, em vez de limparem o banheiro, eles trocam o banheiro. Reformaram tudo, lajotas, loiças sanitárias, enfim, um banheiro completamente novo. Como é bom ter dinheiro nesse mundo de meu Deus. Se eles soubessem o sofrimento que tivemos para reformar o banheiro da nossa casa aí no Brasil... e que eles fazem o mesmo em vez de usar uma boa escova e um bom desinfetante...

Estou lembrando de coisas variadas da minha vida aqui agora. Uma totalmente nada a ver com a outra. Agora eu estou convivendo mais com os japoneses do meu laboratório. Às vezes eles estão conversando coisas engraçadas mas, se eu não presto muita atenção no que eles estão falando, eu não entendo patavina de sobre o que está sendo tirado sarro. Mesmo assim, quando todos riem em coletivo, e eu estou distraindo olhando para o computador, flagrei-me já dezenas de vezes rindo junto com eles, só para não parecer antipático. Eu não faço de propósito, sai naturalmente! Eu já sou risonho por natureza e acabo rindo de não sei o quê por várias vezes. Tomara que isso não me meta em problemas algum dia... Às vezes eu até viro em direção a eles como se estivesse entendendo e dou minha gargalhada junto. Como as coisas transformam a gente!

Os japoneses sabem ter humor. Mas como muitas piadas e brincadeiras são baseadas em coisas culturais que eu não compreendo, muitas delas não me fazem rir. Às vezes o estilo de humor deles é até muito ácido, mas não tem quase nenhuma malícia. O brasileiro tem muito humor baseado em malícia, então a gente sente bastante a diferença. Mas para rir completamente precisa ser japa, não tem jeito...

Acho que por hoje está bom! É isso! Só para bater ponto mesmo...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Nomikais

Olá, leitores! Se é que vocês existem, sejam mais uma vez bem-vindos ao meu blog!
Depois que eu parei de escrever por um mês e anunciá-lo, não existem mais razões pelas quais as pessoas entrem aqui - a não ser que me encontrem em um mecanismo de busca ou eu volte a anunciá-lo aos amigos e conhecidos.

Hoje vou falar sobre um acontecimento que terá em alguns instantes aqui no meu laboratório. A Nomikai. Nomikai é uma palavra formada por nomi (ato de beber) e kai (reunião), então é fácil inferir que é uma reunião para beber. O motivo da reunião de hoje no nosso laboratório é marcar o início do ano letivo de 2009 e dar as boas-vindas aos calouros de último ano de engenharia e do mestrado (eu sou um deles). 

Como funciona uma nomikai no Japão?

Primeiro, o meu parecer sobre o significado e a importância social da nomikai. A nomikai é um evento de suma importância social, no trabalho ou em grupos de estudo e pesquisa, em que as pessoas que compartilham o mesmo local e tempo de trabalho se reunem para comemorar esse fato e abrir o coração. Abrir o coração inclui todos os fatos interessantes cometidos por pessoas inebriadas pelo delicioso saquê. ou atsukan (saquê aquecido em banho maria, como bebido em tempo frio), pela cerveja, pelas outras bebidas alcoólicas que você imaginar. 

Seguindo a cultura japonesa, faltar a um evento a que você é convidado é falta de consideração, falta de educação mesmo, a não ser que você tenha uma justificativa plausível. Em uma das nomikais, não esteve presente a secretária do laboratório, que é mãe de família. Mas isso não é motivo para faltar, não! Ela tinha ido para a Coreia do Sul, numa viagem programada antes de marcarem a data da nomikai. 

Aliás, Coreia do Sul é um dos países que eu vou conhecer antes de voltar para o Brasil, afinal é o destino internacional mais próximo e barato que tem... em promoção, pacote de 4 dias com hotel e passagem por 300 dólares em média.

Voltando à nomikai. Esta é um evento de geralmente 2 horas de duração, que são realizados em Izakayas (bares em estilo japonês). Esses bares oferecem um período de duas horas com rodízio de bebidas alcoólicas e não-alcoólicas por um preço determinado. Às vezes esse custo inclui algumas porçõezinhas, às vezes as porçõezinhas são à parte, mas eu sempre saio com fome desses lugares.

Após todos se reunirem num horário marcado religiosamente, é feito um brinde pelo chefe do grupo (no caso do meu laboratório, o meu orientador), e gritam Kanpai!!! (Saúde!), fazendo tin-tin. Até então nada tão anormal, sem falar que tin-tin é um palavrão aqui no Japão (car****), fato pelo qual não é comum "onomatopeizar" o tilintar dos copos dessa maneira.

Depois, começa o bate-papo e a bebedeira, com variedade imensa de bebidas, mas sempre o saquê sendo a bebida mais consumida. O costume japonês rege que uma pessoa deve servir a outra; não sei se isso tem ordem hierárquica, mas você deve ser servido e beber. Se você não quiser beber mais, deve deixar o último copo cheio. Caso contrário, se alguém perceber, vai logo encher seu copo novamente, e aí se inicia o ciclo alcoólico das "aberturas de coração" previamente mencionadas.

Eu percebi que muitos bebem por educação, em respeito ao seu superior, e alguns japoneses têm uma facilidade de ficar vermelhos, roxos, com álcool. Parece que falta uma enzima no corpo deles que faz isso acontecer. Como muitos bebem por educação, em respeito ao superior, ou nas brincadeiras ébrias, muitos passam mal, mas isso não é problema. Aparentemente a regra é: "Procure não vomitar aqui. Vá ao banheiro, vomite o que precisar e volte para brindarmos novamente."

Como o álcool é então muito presente, coisas muito interessantes também acontecem. Certa vez ouvi falar que um funcionário, no retorno da nomikai, puxava seu chefe pelo pênis na estação. Acho que não é mentira não, haja vista o quanto eles bebem e esquecem da vergonha.

O mais interessante é que, na sociedade japonesa, seja o que for que você tenha cometido na noite passada, em que todo mundo estava feliz, nada é comentado, não se tira sarro. Com discrição absoluta, no dia seguinte no trabalho ou no laboratório é como se nada tivesse acontecido. "Bom dia", "Bom dia"... Já que todo mundo é culpado, por que eleger um coitado?

Meu professor fica alto e faz piadas, mete a boca nos alunos que não estão indo bem, serve os alunos e questiona porque estão bebendo mais, e no final vai embora com os seus discípulos ajoelhando à sua volta. 

O mais legal é que a maioria do povo usa o transporte público. "Se beber, não dirija", além de lei aqui também, é respeitada. Então todo mundo pode festar e deixar depois o metrò ou o trem fedendo pinga que não tem problema.

É isso, pessoal!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

De volta ao Japão

Olá, pessoal! De volta ao Japão, quase um mês de folga depois, retorno aos meus posts. Desta vez vou contar um dos aspectos da historinha de como foi meu retorno do Brasil ao Japão: a terrível amigdalite a que fui acometido - amigdalite com G mudo sim, pois achei um absurdo a nova regra ortográfica cortar as consoantes mudas das nossas palavras lindas.

Três dias antes de vir para o Japão, comecei a sentir um princípio de febre... e pensei "Ih... esse negócio não vai dar certo não". Dito e feito: já de cara, 38 graus de febre e a garganta doendo. Porém, a princípio, pensei que fosse uma de minhas milhões de infecções de garganta que tenho sempre, e um pouco de amoxicilina associada a nimesulida e uma eventual novalgina em momentos de febre me salvaria dessa em três ou quatro dias.

Bem, chegou a viagem para o Japão e eu já estava conformado. Graças a Deus os serviços de bordo da Emirates são bastante bons, a poltrona que eu estava era numa posição confortável e eu podia ir ao banheiro cuspir tantas vezes quantas fossem necessárias sem incomodar ninguém. Cuspir sim, o que me mais faz auto-diagnosticar uma deliciosa amigdalite bacteriana.

Mas mesmo assim, ninguém merece! O suco de laranja descia queimando - afinal, eu era louco de bebê-lo mas eu sentia uma vontade incontrolável! - e eu tinha que parar alguns segundos para curtir a dor. Lembrei-me daquela frase do polaco no "Código da Vinci" - "A dor é boa". Ele realmente era louco.

Segunda-feira, primeiro dia no Japão, fiquei de cama. Mas nem a pau ir para a Universidade! No dia seguinte, após um brado telefônico da minha Mãe, pulei da cama as 5:45 da manhã e fui para o hospital que sabia que era bom: o da Cruz Vermelha de Nagoya. Lá, fiz uma consulta de emergência com um residente, que me fez um monte de perguntas e chegou à conclusão de que eu tinha sabe o quê? Amigdalite. E, após uma cultura, ele concluiu que o antibiótico mais recomendado para meu caso era sabe qual? Amoxicilina.
Conclusão: uma vez ele tendo chegado a esse diagnóstico, e sabendo que eu já vinha tomando tal medicamento, recomendou-me que aguardasse o início das consultas e consultasse um otorrinolaringologista. Foi jogado fora o dinheiro dessa pré-consulta? Bem, não sei, mas mesmo com o seguro de saúde pública, que cobre 70% das despesas, a consulta ficou 28 dólares.

Ao consultar uma especialista, esta me enfiou um tubo pelo nariz e me receitou antibiótico na veia, além de uns remedinhos paliativos para consequências. Tenho voltado lá todos os dias, tomei 4 dias seguidos de antibiótico na veia e o médico da vez me olha a garganta acompanhando o prontuário. Estou com os braços roxos, mas salvo, e então Raphael voltou à tona. Ainda, sexta-feira, retorno lá para ver se a íngua que se formou no meu pescoço sumiu por completo. Até agora, ela só está diminuindo.

Bem, pensei que essa seria a introdução da minha historinha, mas como eu sempre escrevo demais, já estou no fim, quase. A conclusão, que teria sido um desenvolvimento se eu tivesse sido mais sucinto, é contar um pouco o que eu observei do sistema de saúde japonês.

- Interessante que os postos de atendimento, dentro de uma especialidade, são 1, 2, 3, e 5, já que o número 4 significa morte, então um hospital seria o lugar menos adequado para tal sacrilégio. Mas nesse hospital que eu fui o 4º andar existe!

- A saúde japonesa, assim como o ensino universitário público, é paga, mesmo com a carteirinha do "SUS" deles. A diferença é que aqui funciona. Eu posso escolher uma gama enorme de hospitais, e eles me atendem como se eu fosse qualquer cliente, a princípio. Eu pago 30% das despesas no caso de consultas e medicamentos, mas não sei como funciona em emergências, internações e cirurgias.

- Os remédios de verdade não têm para vender nas farmácias. As farmácias que você encontra na rua têm toda a linha de perfumaria, cosméticos e cuidados pessoais. Tem alguns chás especiais, alguns remedinhos naturais para emagrecer, camisinhas e alguns pseudo-medicamentos que você pode tomar sem prescrição médica. Mas os fármacos, aqueles com nomes lindos mesmo, inclusive as pílulas anticoncepcionais, só no hospital após a prescrição médica e após o pagamento. E na quantidade certa que você vai usar.

- Diz que quando você vai visitar um doente, é interessante que leve frutas. É o presente mais legal nesse caso! Mas também pode levar flores, desde que não estejam no vaso, o que significa que vai "enraizar" a doença, ou algo assim.

Essas são as observações preliminares de um ambiente hospitalar. Espero não ter oportunidades de ter informações mais detalhadas! É uma lacuna que quero manter não-preenchida no meu blog e na minha vida, pois ficar doente fora de casa é muito ruim.

É isso, pessoal! Abraços.